Depoimentos

A mão de A.A. está sempre ali

A Terceira Tradição é bem clara: "Para ser membro de A.A. o único requisito é o desejo de para de beber."

Corria o ano de 1993 quando fui abordado por uma pessoa que se dizia membro de uma Irmandade que havia salvado a sua vida. Contou-me sobre o seu sofrimento no alcoolismo e como tinha encontrado a saída para uma vida útil e feliz. Convidou-me, sem nenhum compromisso, para participar de uma reunião de Alcoólicos Anônimos e que se eu tivesse o desejo de parar de beber poderia, assim como ele, me tornar membro da Irmandade.

Apesar de na época estar vivendo grandes dificuldades profissionais, sentimentais, familiares, financeiras, etc., respondi: “Eu, doente alcoólico? Parar de beber? Nem pensar! Agradeço, mas não preciso disso...” Gentilmente despediu-se deixando em minhas mãos um cartão do grupo o qual freqüentava, ressaltando que se algum dia eu precisasse ficaria muito feliz com a minha visita.

Antes que ele saísse, curiosamente e com raiva perguntei: “Quem o mandou aqui?” Respondeu-me: “Olha, eu não sei, esses pedidos são anônimos, mas com certeza posso lhe assegurar que deve ser uma pessoa que te ama muito”. E retirou-se, me deixando com a pulga atrás da orelha.

Depois daquele dia, o que estava ruim ficou ainda pior; todos em minha volta percebiam que eu tinha sérios problemas com a minha forma de beber e dos danos que estava causando a mim e às pessoas a quem mais amava. Não conseguia enxergar que estava prestes a bater no fundo do poço e muito menos admitir que precisava de ajuda para sair dele.

Foi necessário pesar sobre a minha vida mais sofrimento: meu carro, único bem material que ainda restava, foi roubado; minha namorada, a única mulher que ainda me tolerava, me deu o ultimato; minha ex-mulher, chamando-me de irresponsável, falando que não tinha feito a filha sozinha, ameaçava mandar-me para a cadeia por causa da pensão que prometia mas nunca mandava; minha mãe e minha irmã, as pessoas que eu mais amava, não suportavam mais o vexames e o sofrimento de conviver comigo, alem da dor de quererem e não poderem, humanamente, fazer mais nada por mim a não ser orar.

Perambulava pelas madrugadas fechando os bares e botecos com o desejo insaciável por mais uma bebida; o desespero aumentava quando a realidade da vida aproximava com a manhã de um novo dia e eu preso, escravizado, no mundo das ilusões.

Os sonhos e soluções que construía nos primeiros goles desmoronavam-se como castelos de areia aos primeiros raios de sol. O mundo estava todo errado. Por que eu, o único certo, teria que sofrer dessa forma?

Deus não existia, ou se existisse era muito perverso.

Numa dessas madrugadas sem perspectiva nenhuma e literalmente na sarjeta, deitado no meio-fio, em frente à casa de minha mãe, entorpecido pelo álcool, num lampejo de lucidez, admiti que era alcoólico, que não conseguia beber controladamente, que todas as minhas tentativas para parar de beber foram frustradas. Reconheci que sozinho seria impossível abandonar a bebida alcoólica; naquele instante joguei a toalha!

Clamei a Deu, no meu precário entendimento, que se ele realmente existisse que me deixasse morrer ou então que me mostrasse uma saída. Deus, que já algum tempo já vinha escutando as orações das pessoas que me amavam, em especial as da minha avó, pessoa de extremada fé, porque permanecer vivo até aquele momento sendo livrado de acidentes, brigas, tiros, doenças oriundas da promiscuidade sexuais, ambientes perigosos, demonstram a veracidade do poder da oração.

O fato é que, naquela madrugada, num raro momento da minha vida, conversei com Deus de forma absolutamente honesta e, para minha felicidade, ele resolver me atender.

Foi no dia 2 de maio de 1994, numa segunda-feira, por volta das 18 horas, na área central de Belo Horizonte, no meio daquela multidão de pessoas que normalmente transitam pelo local, me sentindo completamente só, vazio por dentro, com uma depressão alcoólica dolorosa, achando mais uma vez que Deus não havia me escutado, resolvi para e encostei-me na parede de um prédio onde funcionava um extinto banco. Nesse instante cortou-me o pensamento a lembrança daquela pessoa que, aproximadamente, um ano atrás havia me abordado. A cena da nossa conversa encheu a minha mente e comecei a lembrar daquilo que me disse: “existe uma saída”, lembrei-me de seu nome, do grupo de Alcoólicos Anônimos o qual freqüentava, que ficava perto da Praça Sete, o nome da rua e o nome do edifício, só não lembrava exatamente, o andar.

Num breve instante duvidei da realidade daqueles pensamentos, pois há muito vinha sofrendo de falta de memória sem contar os tradicionais brancos, mas, surpreendentemente, resolvi atravessar a avenida e conferir. Afinal de contas o que tinha eu mais para perder? Um sentimento indiscutível dominou-me quando comprovei que os meus pensamentos conferiam com a realidade. Aquilo com certeza não era mais um de meus delírios. Alguma força maior estava me conduzindo até aquele local.

Timidamente entrei no prédio evitando a portaria, pois estava com vergonha de perguntar em que andar funcionava A.A. e, mesmo sem saber, fui até o elevador. Desci em um determinado andar e procurei em todas as salas. Não existia “o tal” de A.A., ali. Frustrado, resolvi ir embora e estava me dirigindo para o elevador quando um pensamento me ordenou. Vai até a escada rapaz! Você chegou até aqu e vai desistir agora? Você já acertou a rua, o prédio... seria querer demais acertar o andar também.

Fui até a escada e pensei: subo ou desço? Sempre escolhia o caminho mais fácil e o mais fácil naquele momento era descer. Mas naquele dia, misteriosamente, decidi fazer diferente e subi.

O milagre aconteceu para mim... porque lá estava a salvadora porta aberta de Alcoólicos Anônimos, a mão estendida de A.A. havia me alcançado e eu estava ali. Quando cruzei aquele portal fui acolhido carinhosamente pelos iguais e naquela noite participei de minha primeira reunião. Quase ao final da reunião; num sobressalto, levantei-me da cadeira e, diante daqueles companheiros e companheiras, que testemunhavam mais um ato da Providência Divina, admiti que era um alcoólico e tornei-me mais um membro dessa maravilhosa e vivificante Irmandade.

Vocês podem estar se perguntando: o que esse relato tem a ver com a Terceira Tradição? A resposta é simples: quis demonstrar através dessa experiência pessoal os enormes obstáculos que nos separam de A.A., batalhas espirituais, mentais e físicas são travadas, negamos a nossa doença, defendemos o nosso algoz (álcool); etc. a grande maioria tem tombado (morrido) antes de chegar. Exemplo disso foi o meu ex-cunhado, um atleta, bebíamos juntos; eu parei e ele continuou, apesar das varias abordagens e, em janeiro de 2002, aos 39 anos, faleceu prematuramente, vitimado pela doença do alcoolismo.

O Primeiro Passo mostra claramente que nossa chegada foi um ato da Providência Divina. Portanto, a vontade de Deus, na forma em que cada um O concebe. Se essa vontade divina conduz nosso irmão doente até o grupo, quem somo nós para fecharmos a porta e impedirmos seu ingresso, impondo-lhe regras, formalidades e exigências medrosas totalmente descabidas?

Para muitos bêbados desesperados, A.A., é a sua última chance de sobreviver.

Qual de nós se atreverá a dizer: “Não, você não pode entrar”, assumindo assim o papel de juiz, jurado e carrasco. Qual de nós executará a sentença de morte de seu próprio companheiro alcoólico? E depois, quem será o próximo?

Nossa Terceira Tradição em sua essência sinaliza claramente que não podemos perder de vista a verdadeira finalidade de nossa Irmandade. Através da nossa própria experiência pessoal obtemos o entendimento condensado na Terceira Tradição, que diz: “Você é um membro de A.A., se você o disser. Não importa o que tenha feito ou que ainda venha a fazer”.

Tradição e transmissão de valores espirituais de geração em geração; conhecimento ou prática proveniente da transmissão de hábitos e costumes daí, quando em recuperação na irmandade de Alcoólicos Anônimos deveríamos, ainda que não sejamos obrigados, por sugestão, criamos o habito de praticar nossas Doze Tradições para a sobrevivência individual, do grupo e da irmandade de A.A. Isso significa, também, continuarmos transmitindo às gerações futuras a dádiva do nosso Segundo Legado, que é a UNIDADE.

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